Aldeia do Bispo

Capeia arraiana

Em Novembro 2010, a capeia arraiana, tradição do concelho do Sabugal única no mundo, foi registada como Património Cultural Imaterial.

A concretização deste primeiro processo de registo no Inventário Nacional assume um particular significado no recente trajecto de salvaguarda e valorisação do património imaterial em Portugal por parte do Instituto dos Museus e da Conservação.

A capeia arraiana é uma tradição tauromáquica popular, de origem indeterminável e  especifica das comunidades de onze freguesias do município do Sabugal próximas da fronteira com Espanha : Alfaiates, Aldeia Velha, Aldeia da Ponte, Aldeia do Bispo, Fóios, Forcalhos, Lageosa, Nave, Quadrazais, Rebolosa e Soito.

 No aspecto social, a sua vivência é um factor identitário primordial e constitui um forte elo de ligação entre os naturais de cada comunidade quer sejam residentes ou que tenham imigrado para o estrangeiro ou para outras regiões do território nacional. Por isso, ocupa um lugar fundamental na memória colectiva de todos os que nela participam.

 O aspecto mais peculiar reside na lide colectiva do touro bravo com o recurso do forcão.

A organização da capeia está a cargo dos mordomos, jevens solteiros nomeados anualmente, que com a ajuda de todos devem assegurar o corte da madeira e a construção do forcão, o aluguer dos touros, a montagem da praça onde se vai realizar a capeia e a angariação dos donativos para assumir os custos de aluguer dos touros.

O desenrolar da manifestação conta com vários tempos fortes : pela manhã, realiza-se o encerro com a chegada a pé dos touros conduzidos por cavaleiros e peõs e a experimentação ou boi da prova (ensaio que permite fixar idéias não só sobre a bravura dos touros, como também da « animação » da rapaziada que vai pegar ao forcão e depois « assobiar o boi » (isto é, realizar os recortes e lidar o touro sem capa) ; da parte da tarde, quando já começa a abrandar o calor, realiza-se a capeia própriamente dita que integra o pedido da praça, a espera ao forcão dos touros e o desencerro, com a saída dos touros para o lameiro donde tinham vindo pela manhã.

A confecção do forcão (actualmente realizado com o recurso a ferramentas de carpintaria modernas), desde o abate e secagem da madeira até ao « atar da corda », obedece a um conjunto de conhecimentos e técnicas que se têm transmitido oralmente ao longo das gerações.

O encerro sempre foi considerado como uma das componentes mais importantes da capeia, dado que, aos cavaleiros que conduzem ou acompanham os touros, juntam-se inumeras pessoas a pé que participam da expectativa geral da multidão que aguarda a entrada da manada na aldeia em direcção à praça.

Logo após os foguetes, a indicar que os touros estão encerrados, tem lugar a experimentação para avaliar a qualidade do «curro» e fazer aumentar a expectativa quanto ao desempenho dos touros da tarde. A capeia começa depois por voltas das 17h com o ritual do pedido da praça pelos mordomos da capeia a uma personalidade local, que responde com um discurso enflamado autorizando que se dê início à capeia.

O forcão, até então, colocado com uma forte inclinação no « canto do forcão », é erguido por um numero variável de homes que se postam no centro da arena frente à porta do curral e esperam a saída do touro e o seu imediato arremesso contra a estrutura.

Os lugares mais avançados e mais perto das investidas do touro, são as galhas. No primeiro touro da capeia, os mordomos, têm invariávelmente, o privilégio de « pegar à galha ».

O forcão é constituido por quatro zonas bem distintas :

O rabiche – com os quatro tornos cravados, serve de leme com o qual se orienta a movimentação da estrutura e se determina a inclinação com que é apresentada ao touro, sendo recomendado a maior inclinação possível para que o boi veja mais uma muralha do que um simples obstáculo que importa ultrapassar ou por baixo ou por cima. Daí, que os rabejadores (um ou dois) sejam recrutados por entre a malta mais alta.

Os lados -esquerdo e direito, são eles que vão permitir a execução das manobras laterais com passos cadensados para evitar de pisar os companheiros. Regra geral participam de cada lado uma dúzia de rapazes com a perna ou ombro bem encostados à madeira para reduzir a violência do choque, o que não impede que durante alguns dias persista o negraz a testemunhar da força do embate.

As galhas constituem a posição estratégica que vai condicionar a qualidade da espera do touro : rodando com agilidade para não deixar o touro dar a volta ao pau de pinho, posicionando, no momento certo, o forcão mais ou menos alto para evitar que o touro salte ou apoiando com todo o peso do corpo para que o touro não passe por baixo da galha.

O meio do forcão constitui a mais recente evolução no modo de pegar ao forcão. Hoje em dia, é aí que se concentra a força para resistir à marrada do touro na galha. Ficam assim as tarefas mais repartidas entre quem orienta e quem resiste, ficando bem claro que a arte de pegar ao forcão reside num aspecto fundamental : a solidariedade de todos, qualquer que seja a situação que se possa vir a apresentar. Nestas aventuras, a segurança de cada um está no desempenho dos outros participantes, sabendo que podemos ajudar e que também seremos ajudados.

Após serem corridos todos os touros, geralmente 6 ou 7, procede-se ao desencerro, isto é, a devolução dos touros e cabrestos conduzidos pelos cavaleiros em direcção à herdade de onde tinham saido pela manhã.

 Fotos : Manuel Luis Gonçalves - © Raiar